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      Viver em três dias

      Quando ultrapassamos todos e quaisquer conceitos sobre a natureza humana...o que sobra?

      Friday, February 11, 2005

      III

      Acordei com a cabeça húmida e com uma enorme dor de cabeça. Vi o sol lá em cima, ou a lua...ou o mesmo buraco de luz, vinda do cume do nada. Movi-me aos poucos, e a custo, passei a mão pela cabeça, ao de leve, e saboreei o meu próprio sangue, o que me fez sentir tonto.
      Depois de alguns minutos, a tentar recuperar forças, ergui-me a custo, suportando o meu corpo, que me parecia mais pesado, com ambos os braços, sujando as mãos de terra húmida. Já sentado, comecei a ouvir a mesma voz, que me intrigou há pouco. Induzido pela curiosidade, continuei no difícil processo de me erguer. Já em pé, aproximei-me novamente do buraco de luz.
      Lá fora, o velho repetia as mesmas palavras que havia ouvido há pouco...as mesmas pausas...a mesma expressão e entoação...como se eu tivesse retrocedido ao período em que havia desfalecido pela queda...até os gestos eram réplicas do que havia visto...tudo era igual, como um estranho e continuado dejà vu.
      Atento, atónito escutei e esperei mais informação da parte do velho. Informação que não vinha. Era como que um livro cuja história estava a ser vivida naquele momento, mas cuja continuação não havia sido escrita. A página não virava, e eu começava a demonstrar alguma ansiedade, face ao que estava para vir...mas não vinha! E, passados alguns minutos de ter visto exactamente o que havia visto anteriormente, comecei a aperceber-me que estava a presenciar um loop...será que estava a viver mais apressadamente do que o ritmo do escritor divino que me havia criado? Tal era a vontade de viver apressadamente que me antecipei num presente ao meu próprio futuro? Será que era meu desejo escrever o guião da minha própria vida e da vida de outros, que poderiam nem sequer existir como personagens reais?
      Parecia-me cada vez mais óbvio que tinha que intervir de qualquer forma para que aquela história tivesse um desenlace...um final. Mas seria assim tão importante que houvesse um final para esta história?
      ‘Para mim, o final de uma narrativa é crucial para cativar o público e tornar lógica a sequência de raciocíneo, de quem acompanha essa mesma narrativa desde o seu início...Parece-me óbvio que, quem começa a acompanhar uma narrativa, gosta de chegar a um ponto em que o resultado é produto do desenvolvimento narrativo...é como uma realização objectivada com um final.’ – Li na capa de um romance de um escritor sul americano.
      ‘...Nada precisa de ter princípio ou fim...o conteúdo ultrapassa essas barreiras pela qualidade da construção das personagens, dos cenários, das descrições e, acima de tudo, da mensagem que se quer transmitir...até porque a mensagem pode implicar um infinito casual...e, nesse caso, não se enquadram os eternos limites de final de história...é tudo uma questão de intenções e da forma como elas se realizam...’
      – O professor de literatura na Universidade de Letras esbracejava, para se fazer entendido, enquanto pronunciava estas palavras.
      Esta era uma personagem extraordinariamente curiosa. Uma farta branca que lhe dava uma forma alegre à face de pele sadia e pouco maltratada pelos anos longos de vida, uns olhos cor de água, daqueles mares, daquelas praias que todos sonhamos conhecer, roupa bem informal, aliás em conformidade com a forma como este sempre abordava os seus colegas (mesmo aqueles que ainda não tinha tido o prazer de conhecer), barriga pronunciada com algum arrojo e olhar desconfiado mas, curiosamente, acolhedor.
      Entre as pequenas paragens que fazia, para explicar a sua ideia, olhava o jornalista olhos nos olhos com o objectivo de perscrutar e entender até que ponto estava a ser compreendido. Era como que uma insegurança que ele demonstrava face à sua própria qualidade no acto de ensinar, ou uma necessidade exacerbada de ser compreendido. Isso obrigava a que o jornalista se mantivesse em constante alerta. Esta entrevista, que tinha acompanhado atentamente há uns dias atrás, numa sessão de autógrafos deste mesmo professor, aquando do lançamento de mais um dos seus livros, tinha-me cativado o interesse...
      Independentemente das forças ocultas em oposição que me distraiam o pensamento, deixei-me levar pela espontaneidade como geralmente faço e acedi à vontade que tinha em saciar a minha curiosidade. Afinal de contas, tudo me levava a concluir que este jogo tão real estava associado à minha evolução enquanto criança...a estórias contadas inacabadas. E ,assim, subi a custo para fazer parte da encenação...
      Quando finalmente consegui perscrutar o que se passava do outro lado, foi-me apresentado um cenário cultivado de cores verdes abundantes e de imensas criaturas que pareciam receosas do velho que encontravam pela frente. As árvores, que compunham este cenário, eram enormes e fortes, e os seus ramos não eram exclusivos de nenhuma árvore, porque se tocavam, como se toda a floresta estivesse abraçada em uníssono. Indubitavelmente, estava a escrever a conclusão da velha história, que me havia sido contada anos atrás. O velho, desalentado com o insucesso na tentativa de explicação da sua presença, naquele espaço, àquela criaturas que, entretanto, se ausentavam de forma lesta por entre os obstáculos verdes que pintavam o cenário, direccionou o seu olhar para mim, quando um dos meus passos sobre um tapete de folhas se mostrou mais ruidoso.
      ‘Estava à tua espera...ainda bem que pudeste vir’ – falava de forma calma e sorridente enquanto eu ainda olhava para o tapete e tentava descobrir a causa do ruído que acabava de emitir...
      As folhas que havia pisado pareciam ligadas entre si como se tivessem sido desenhadas e criadas por alguém com receio de perder a orgânica organizacional de um cenário por onde circulavam muitas criaturas com vontade própria. Estavam dispostas de uma forma que exprimiam uma estética muito espcial e, mais importante ainda, estavam distribuídas num espaço que parecia fulcral para o desenrolar da acção.
      ‘Não te queres sentar?’ – hesitou durante alguns segundos e, perante a minha perplexidade e falta de palavras, decidiu baixar-se lentamente e sentar-se, esperando que eu me acalmasse com a sua nova posição contagiante. - ‘Se não te importas eu vou-me sentando porque estou a ficar cansado’ – estas palavras sairam-lhe a custo porque ainda procurava o sitio mais confortável para se sentar.

      posted by Rick Mont at 9:39 AM 0 comments

      Thursday, February 10, 2005

      II

      - ‘Avô! Avô! Vá lá....não sejas assim....deixa-me ver a prenda!! Depois contas-me a estória.’ – A criança de olhos flamejantes falava e esbracejava para conquistar a atenção do velho cansado que continuava a sorrir esquecido do que era querer saber tudo e ver tudo sem esperar.
      - ‘Que impaciente’ – resmungava o velho repetindo esta frase por diversas vezes com uma entoação cada vez mais gasta até que eu o interrompia como sempre fazia...
      - ‘Deixa...deixa lá! Posso abrir?’

      Já sentado, sorria com aquele sorriso que hoje me encanta e me contagia, mais ainda do que quando era criança...mesmo que agora só o reveja em memórias.
      As diferentes maneiras que tenho de chamar o meu avô passam por simples odores especiais, que passam por mim de forma inesperada, como o cheiro de pinhas queimadas ou de roupa lavada à mão, com o detergente que só ele comprava, ou por juízos de valor com o peso da tradição que ele insistia em me passar...e então vejo o seu sorriso e só depois os contornos do seu rosto. Os olhos acomodados num leito de rugas a fitarem os meus. A roupa sempre dos mesmos tons de cor e sempre com as mesmas formas, a bengala que lhe dava personalidade, mais do que apoio, a voz calma e sensata, e tudo o que faziam daquela personagem um avô...o meu avô. O meu avô? Imagem demasiado estereotipada...Será? Nunca existiu. Construo imagens, vidas e estórias de pessoas irreais...construo mundos fictícios com personagens desejadas por vidas que nunca tive...mas agrada-me a construção...

      Enquanto me esforçava por soltar o embrulho daqueles nós complicados ouvia um pingar sonoro que vinha da cozinha, um pingar hipnótico que lentamente me fez esquecer os movimentos das minhas mãos, que ,mesmo assim, continuavam a trabalhar com um objectivo que agora desconhecia, enquanto os meus sentidos eram arrastados para um cenário diferente...

      Ouço o barulho de água a cair sobre rochas. É apenas melodia imposta por toques de gotas em rochas, vestidas de verde musgo de propósito para o baile em que elas são os músicos e os convidados da pista de dança. Vejo vestidos compridos lindos e cigarras que enganam a sede e os participantes, já que a curiosidade é grande, mais até do que a própria sede. E, por isso, aproximam-se em grupos numerosos e rapidamente juntam o seu talento com sons inconfundíveis. Pássaros lilases e esquilos castanhos juntam cor e movimento e eu sou apenas o mudo numa peça cujo pano se fecha aos poucos.
      Mas quando a minha consciência se preparava para regressar à sala e o pano vermelho aveludado dos sonhos se fechava por completo, ouvi uma voz entre os arbustos...uma voz humana, uma voz que me fez levantar aturdido e me fez desejar voltar à floresta de onde tinha vindo. Abri os olhos o mais que podia, como se isso me fizesse regressar, e rodei sobre mim próprio em busca de um ponto visual qualquer de apoio que me transportasse e me desvendasse o mistério.
      Já resignado, abri finalmente o embrulho e encontrei apenas alguns fios de erva. E então entendi o porquê...e não chorei, porque, apesar do seu significado, agradava-me o enredo. Nervoso, levantei-me e bebi um copo de leite. Lembrei-me de quando recebia uma nota má num exame, na Universidade, cujo resultado era previsível porque não tinha estudado nada. E, mesmo assim, era sempre surpreendentemente cruel.
      Passei a mão pela testa enquanto segurava o copo com a outra e vi reflectido no espelho velho um indivíduo repleto de fobias...fobias de vida e de morte, de tal maneira vincadas que eram quase tão reais como os traços do seu rosto. Decidi pela primeira vez sentar-me e escrever sobre o que via e sentia, porque a caneta e as folhas seriam as únicas que não me trairiam na crença de mim e na hipocrisia de dizer o que faz bem ao ouvido mas mal à alma. Foi assim que pensei e assim que agi...

      ”Derreto emoções em línguas de chamas que me queimam a alma...e caminho mais pesado, cambaleando e pedindo um caminho que acompanhe a imperfeição do meu passo. Sou rejeitado pela estrada e impelido a não olhar para trás, porque as estátuas dos curiosos são feitas de sal que, em feridas ainda abertas, me fazem chorar lágrimas de dor”

      Parei por breves segundos contemplando a parede cinza claro e tentando entender o porquê das palavras que tinha acabado de escrever. Mas a parede muda não me devolveu resposta. Entendendo, contudo, a clara alusão não premeditada a uma passagem biblíca procurei e abri a Bíblia em Génesis 19:26 e li: “E a esposa dele (de Abraão) começou a olhar em volta, por detrás dele, e ela se tornou uma coluna de sal.”. Seria um castigo divino para quem, apesar de ter sofrido num passado próximo, procura o conforto de uma situação que, mesmo não sendo boa, lhe é, de certa forma, familiar e para quem tem medo de enfrentar o desconhecido, mesmo que este se venha a mostrar mais positivo? Este tipo de comportamento de aversão ao risco é, para muitos, irracional. Tem piada...sempre pensei nas definições de irracional e caos...e nunca cheguei a resposta alguma, porque nunca acreditei nesses conceitos. Acreditar em irracionalidade é o mesmo que não utilizar a técnica da empatia. The beauty is in the eye of the beholder...as nossas opções de racionalidade individuais são sempre as mais 'belas', as mais atractivas aos nossos olhos, se não as tomariamos. E, assim, acreditar em irracionalidade, num mundo de beholders da verdade é o mesmo que reflectir segundo a nossa própria maneira de ver a realidade, ou seja, construir pressupostos que levam a um tipo de comportamento, sem utilizarmos todas as variáveis decisivas no momento. Existem limitações que preferimos muitas vezes esquecer, e tomar os modelos extraordinariamente simplificados como universais e, assim, obviar como irracional tudo aquilo que sai da curva do eixo das abcissas e ordenadas. Essas limitações denominam-se de ignorância e esta nunca foi pecado...pecado será a não consciencialização de tal mesma em nós próprios. Temos a tendência de acharmos que a Ciência, a Matemática são insuficientes para explicar todos os fenómenos que nos rodeiam no dia a dia e, no entanto, a insuficiência reside em nós próprios. Não conseguimos encontrar modelos que expliquem a realidade sociológica por exemplo, porque esta tem variáveis que desconhecemos e quando nos concentramos em modelos simplificados pela nossa ignorância ficamos muito longe do empirismo, do real observado, e então concluimos, da forma mais obvia e estupidificante, que a Ciência não tem explicação para tudo. O caos segue esta linha de raciocíneo, ou seja, quando não se encontra um modelo explicativo de uma realidade e quando, mesmo que isso aconteça, a realidade mute com o horizonte temporal e obrigue a modelos dinâmicos que se adaptem a esse devir, prefere-se primar por teorias de caos e arrumar o assunto na prateleira.
      Essa aversão ao risco, racional ou não, leva também, muitas vezes, a situações de tensões desnecessárias e...e lembro-me de uma estória que a minha mãe me contava sobre intolerâncias...não serão também as intolerâncias sintomas de aversões ao risco? Aversões a um desconhecido que nos leva a ser ignorantemente intolerantes? A estória, não me lembro exactamente como era, mas a essência era esta:
      Era uma vez uma floresta com inúmeras criaturas de todas as espécies e de todas as cores. Prados enfeitados com lagos e árvores, regados com cor e música, eram o cenário idílico perfeito onde todas elas interagiam e eram felizes. Não haviam inimigos, não haviam inimizades e todos se conheciam, porque todos comunicavam com sons, com música claramente identificada por todos, mesmo que alguns não se pudessem ver entre eles, como as toupeiras laranja ou os morcegos azuis. As árvores eram enormes e fortes, e os seus ramos não eram exclusivos de nenhuma árvore, porque se tocavam, como se toda a floresta estivesse abraçada em uníssono. Se alguma das criaturas quisesse, poderia viver sem nunca tocar o chão, porque poderia percorrer a floresta toda, caminhando por cima dos ramos das árvores ricas em alimento. Mas a diversidade era companheira e, por isso, mesmo as criaturas que viviam nas árvores desciam cá abaixo de quando em vez. Nunca viajavam para além das fronteiras desta floresta e nunca tinham recebido nenhuma visita.

      Um dia...um dia especial, em que o arco-íris vinha assistir aos recitais providenciados pelos nativos (isso acontecia sempre quando as gotas de água da cascata lenta mudavam de cor) , algo de inesperado aconteceu...

      Uma das fadas de nariz pequenino e empertigado, de cabelo curto e colorido (não muito, porque era ainda uma fada muito nova e são as fadas mais velhas que têm as cores mais distintas e diversificadas) aproximou-se, flutuando sobre os cavalos de escamas, que a observavam, abriu os seus lábios verde musgo e pequenas notas musicais douradas saíram de sua boca, flutuando no ar, tão calmamente como a melodia, precipitando-se num chão coberto de folhas de todas as cores e feitios, pisadas pelo tempo. O caracol de chapéus de chuva e sol manteve-se hirto, enquanto o som permanecia forte e as bolhas de sabão, com sabor a arco-íris, regavam o céu. De repente, um som inesperado surgiu de entre os arbustos, e todos os outros sons suspenderam, como que se de uma ameaça se tratasse. Era apenas um som nunca antes ouvido, uma nota diferente mas tudo suspendeu. Tudo parou na floresta dos murmúrios. Tudo se mostrou de repente tão frágil...

      O que estava por detrás dos arbustos não sei. A minha mãe nunca me contou, nunca acabou esta estória. Mas, o que ela sempre me quis transmitir com estas imagens era que esta intolerância, esta aversão ao risco, pode ter efeitos limitativos no nosso poder criativo. Hoje sinto-o com mais intensidade quando olho à minha volta. Sinais de intolerância escondidos por detrás de palavras vãs sem peso de verdade.

      Este livro de capa preta, ou melhor, este conjunto de cerca de 66 pequenos livros que suporto entre as minhas mãos será afinal o quê? Apenas um conjunto de regras de contrato social, regras de conduta moral rousseaunianas para manterem o homem, fabricado à imagem de Deus e, por isso, bom por natureza, no caminho recto? Ou terão estas páginas sido escritas com um objectivo mais abrangente, tentando mostrar-nos algo? Parece-me óbvio que sim...talvez seja demasiado preguiçoso para pensar que tantas analogias e alegorias tenham sido criadas para simplesmente nos fornecer algo tão simples e directo como: ‘deves amar o próximo como a ti mesmo’ ou ‘deves amar Deus acima de todas as coisas’. E talvez essas mesmas alegorias só o sejam na nossa maneira de ver a realidade. Isto porque, se acreditamos que, de facto, elas existem, então este livro não é mais do que um simples livro de moral, perdendo o seu carácter religioso...religião não se resume a moral!
      ‘Religião não se resume a moral’ – Sussurei roucamente estas palavras, como que para me convencer a mim próprio do que acabara de pensar, porque as palavras sentidas não têm o mesmo impacto das palavras faladas, e um coro de vozes gospel juntou-se a este pensamento, cantando afinado e de forma potente, enchendo a casa de música. Entretanto, uma fotografia de uma Biblía e um jornalista bem vestido, que falava numa televisão muda, desviou-me o olhar e o som do gospel foi perdendo intensidade. Assim que chegava a casa ligava sempre a televisão, mesmo que não estivesse atento, só pela companhia que me proporcionava. Aumentei o volume do som enquanto o ouvia dizer:
      - ‘...notícia bombástica que está a afectar radicalmente os principais organismos sociais e teológicos a nível Mundial: o divino não existe! Pela primeira vez se assiste a uma luta concertada entre as variadas religiões do panorama mundial pela luta de um mesmo objectivo: a manutenção da crença em Deus.
      Teoremas matemáticos desenvolvidos na Universidade alemã, na cidade de Koln, pela equipa de matemáticos liderada pelo professor Her Helmut Weis comprovam que a existência de Deus é, e sempre foi, um logro criado por empiristas nobres de espírito, com a intenção de impor à sociedade regras de conduta de moral, cujos castigos seriam impostos por uma divindade, visto que o exército era escasso, não haviam polícias e a fome era aliada do crime. Religião nasce por necessidade e não pela existência de dados irrefutáveis...’ – o som da voz do reporter foi sendo substituído pelo zumbido repetido de vários philiphyars que voavam em seu redor, sem que este, no entanto, se incomodasse com isso...penso que ele nem se apercebia do que se estava a passar à sua volta. A imagem seguiu para o professor que explicava a sua teoria. Atrás dele, um quadro fervilhava de fórmulas e símbolos matemáticos complexos, alinhados em forma de funções que procuravam explicar algo. A sala era ampla e as janelas enormes, que quase tocavam o tecto, permitiam que os raios de luz se anichassem no seu interior. Um zumbido acompanhado por criaturas de olhos enormes, que faziam autênticas razias à pele pálida e ao laço preto de bolinhas vermelhas que o professor tinha ao pescoço, foi aumentando de intensidade. Um dos philiphyars, agitando as asas ruidosamente, parou em frente dele, girou sobre si próprio, de forma que eu consegui ver-lhe os olhos e as antenas que se agitavam continuamente. Depois de hesitar alguns segundos, voou em minha direcção, atravessou o ecrã de televisão, e entrou na sala onde eu me encontrava. Voltou novamente a hesitar bem à minha frente e continuou a voar na minha direcção...a escuridão voltou...
      Não consigo respirar. - ‘Não consigo respirar’- grito agora com toda a força que tenho, com tanta violência que sinto as veias roxas e salientes no meu pescoço a protestarem. Mas nenhum som provinha da minha boca...
      Aos poucos, e com a progressiva falta de alento e força para continuar a gritar em silêncio, comecei a ver um pequeno raio de luz que vinha do cume...do topo de algo. Tentei apalpar à minha volta para perceber onde estava, mas não sentia nada. Com medo do nada, toquei em mim próprio e senti o meu corpo. Respirei de alívio. Aproximei-me da luz e vi pequenissimos grãos de pó que se aqueciam girando sobre si próprios em vorazes movimentos descontínuos. Isso distraiu-me e, por momentos, uma voz ténue, vinda algures desse cume, foi-me imperceptível. Essa voz aumentou de volume, à medida que me ia apercebendo dela. Era a voz de um homem de idade avançada que, segundo me parecia, de acordo com a entoação, que me era sugerida pela distância, mostrava timidez e procurava explicar algo a alguém. Talvez a sua inexistência a um rapaz de joelhos nús, feridos que chorava pelas suas estórias...pensei eu. E os meus olhos sorriram do absurdo da imagem que eu próprio criei.
      Tentei aproximar-me mais para poder ouvir melhor. Coloquei-me em bicos dos pés e reconheci a voz de alguém que não conhecia. Soava-me tão familiar que me pareceu estranho, já que não haviam presenças masculinas na minha vida, à excepção de alguns poucos amigos que persistia em manter. Depois de algum esforço, consegui espreitar lá para fora e vi a figura de um velho, desenhado à minha imagem. Foi algo que me repugnou. Criei e não tive o discernimento de me ausentar de mim próprio. Tudo nele me parecia demasiado familiar. Era eu mesmo, muitos anos mais tarde. Anos que, se calhar, nem viveria. Anos que, se calhar, nem sequer revelariam o que me parecia agora tão óbvio e assustador. Tal qual Frankenstein, tinha criado um monstro retalhado com bocados de mim e esteriotipos, que me haviam sido induzidos por outros mais próximos. Eu era avô de mim mesmo. Eu era produto e criador...
      Esta sensação estranha fez-me estremecer...dei dois passos para trás e isso fez-me desequilibrar e cair. Mas, como não via quase nada, não consegui evitar que a minha cabeça batesse em algo duro. Podia ter sido uma pequena pedra ou ramo seco ou...
      Caminho pelo corredor da minha casa. Esta alcatifa está igual, sem qualquer aparência de desgaste, sempre com aquela cor azul límpida, que deixava sempre todos os poucos convidados pouco à vontade:
      - ‘Tem a alcatifa tão limpa. Não prefere que tire os sapatos?’ – a resposta da minha mãe era sempre a mesma. Apelava ao cuidado, mas referia que não era necessário ir a tanto. Mas claro que ninguém se sentia à vontade, e o constragimento tornava-se contagiante, mesmo para o nosso lado.
      Entro no meu quarto e esqueço-me de algo na sala, o que me faz voltar a atravessar o comprido corredor até encontrar a porta entreaberta e o ruído de um rádio enorme, antigo, de armação trabalhada em madeira...um rádio mesmo muito antigo que tocava fox trot acompanhado de uma falha ou outra, ocasionada concerteza pelos riscos que o disco continha. Dirijo o meu campo de visão para a minha mãe e vejo-a sentada na sala, com aquele cabelo jovial, dourado, de vestido indiano comprido a falar com a minha avó, também ela extraordinariamente jovem, de pele muito clara e sorriso fácil. Aproximo-me mais e, de repente, páro perplexo...páro perplexo do grotesco que vejo....
      Ambas conversam e ambas têm os meus traços faciais. Ambas têm o meu rosto...sinto vertigens e o meu corpo oscila...sinto-o porque os meus pés não param quietos tentando acompanhar o mover de uma sala que estava parada...

      posted by Rick Mont at 4:16 PM 0 comments

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